Hortolândia, 11 de Setembro de 2023.
50 anos do golpe militar no Chile
por Lucas Polli
Introdução
No dia 11 de setembro de 1973, um golpe empresarial-militar com apoio estrangeiro dos Estados Unidos dava fim aos mil dias de governo da Unidade Popular, presidido por Salvador Allende. Allende foi eleito pelo povo chileno em 1970 através de uma coalizão de partidos de esquerda e centro-esquerda denominada “Unidade Popular”. Diferentemente das transições ao socialismo que ocorreram na Rússia, China ou Cuba, a via chilena ao socialismo se daria sem recorrer às armas, mas sim com reformas graduais dentro da democracia burguesa que paulatinamente levariam ao socialismo. Apesar de desarmado, o processo chileno esteve envolto em luta, com diversas ocupações de terras e fábricas, desapropriações, e criação de instrumentos e Poder Popular por parte dos trabalhadores e trabalhadoras.
Os militares e os empresários no Golpe
No golpe que derrubou Salvador Allende e deu fim ao governo da Unidade Popular, tiveram papéis fundamentais os militares, os empresários, e o imperialismo estadunidense. Os militares, em armas, deram o golpe final, assassinando Salvador Allende e seus apoiadores com bombardeios no Palácio de La Moneda. Os empresários, ao longo de todo o governo da Unidade Popular, tentaram sabotar o governo. Em outubro de 1972, fizeram uma “greve dos patrões” com o objetivo de desestabilizar o governo e que teve como resposta uma grande mobilização dos trabalhadores que ocuparam as fábricas e terras para não paralisar a produção. Além disso, nos mil dias de Unidade Popular, os empresários se utilizaram da técnica do “açambarcamento”, que consistia em esconder as mercadorias, gerando inflação, e vendê-las a preços exorbitantes em um mercado paralelo.
Allende promoveu uma estatização do cobre chileno, um produto amplamente explorado pelas multinacionais que lucravam com a matéria prima e exportavam os seus capitais, contribuindo apenas para a miséria do povo chileno. A estatização do cobre foi entendida como a “Segunda Independência” do Chile, agora livre para redistribuir para o povo os lucros de seu principal produto até então. Essa medida gerou um descontentamento entre diversos capitais estrangeiros e o imperialismo estadunidense, que financiou grupos armados e deu apoio logístico e político para que o golpe acontecesse. O secretário de Segurança Nacional de Nixon, Henry Kissinger, justificando a intervenção no Chile, dizia que “não havia nenhuma razão para permitir que um país se tornasse comunista pela irresponsabilidade de seus povo em eleger um comunista.”
A repressão dos militares
Logo nos primeiros dias do golpe, os militares mostraram ao que vieram. O número de prisioneiros do regime era tamanho que prisões tiveram que ser improvisadas. O Estádio Nacional do Chile, entre 12 de setembro e 9 de novembro de 1973 foi utilizado como local de prisão e tortura de apoiadores do governo da Unidade Popular; com milhares de pessoas presas, torturadas e desaparecidas pela ditadura empresarial-militar capitaneda por Pinochet. A Comissão Valech, encarregada de investigar os crimes da ditadura, estima que existem cerca de 40.000 pessoas entre as desaparecidas, assassinadas e torturadas; segundo os investigadores, o número pode ultrapassar 100.000 pessoas com novas investigações. Toda essa repressão da ditadura chilena esteve acompanhada de um projeto econômico em fase de teste: o neoliberalismo. Para funcionar, a mão invisível do mercado, junto do braço armado do Estado chileno, teve de manchar-se com o sangue de milhares de pessoas que foram presas ilegalmente, torturadas, assassinadas e desaparecidas.
A ditadura militar brasileira e o golpe no Chile
As pesquisas recentes vêm mostrando que o Brasil desempenhou um papel importante no golpe empresarial-militar desencadeado no Chile. Do ponto de vista das relações exteriores, o Brasil atuou no sentido de isolar o Chile presidido por Salvador Allende do restante da América do Sul e foi o primeiro país do mundo a reconhecer a junta militar liderada por Augusto Pinochet. Militarmente, o Brasil financiou grupos de extrema-direita e neofascistas armados que combatiam a Unidade Popular e realizava atos de terrorismo contra a população chilena. Além do financiamento de grupos armados anti-Allende, a ditadura empresarial-militar auxiliou a ditadura chilena com treinamentos para a repressão e enviou uma série de militares para o Estádio Nacional, que colaboraram na tortura, assassinato e desaparecimento de diversos chilenos, além de brasileiros que se encontravam exilados no país.
Allende Vive e Viverá!
“Saibam que, antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.
Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores! Estas são minhas últimas palavras e tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão.”
Salvador Allende
Estas foram as últimas palavras de Allende, em um discurso dirigido ao seu povo enquanto os militares bombardeavam o Palácio de La Moneda. Nós, do Coletivo de Educação Popular Flor de Maio, não poderíamos concordar mais com o presidente Salvador Allende. Em outubro de 2019, o povo chileno se levantou contra o regime neoliberal de Piñera, herdado da ditadura chilena. Frente ao crescimento da extrema direita e da incapacidade do governo liberal e lambe-botas de Gabriel Boric, se levantará uma vez mais o povo chileno! Como salientou Allende em seu último discurso, a História é nossa e a fazem os povos!
Allende Vive e Viverá
Venceremos!