hortolândia, 25 de dezembro de 2023.
A nova estrutura de Autonomia Zapatista
por Acauã Neves
“Outubro de 2023.
Morreu SupGaleano. Morreu como viveu: infeliz.”
Assim é aberta a segunda parte de uma série de comunicados do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), lançados no decorrer das últimas semanas, às vésperas do aniversário de 30 anos do levantamento público do movimento, no primeiro dia do ano de 1994. 30 anos do início da guerra contra o esquecimento, 30 anos que o zapatismo vem sendo uma das referências de luta contra a hidra capitalista.
A forma de comunicação e sua maneira singular tem como um dos elementos que chama a atenção a morte e a vida das ‘personas’ mensageiras que representam o movimento zapatista externamente. Aquele que assina os comunicados, que realiza as entrevistas, está demonstrando o direcionamento político configurado no presente momento. Portanto, a morte (e o renascimento) na proposta comunicativa do EZLN indica uma nova configuração política em sua tática revolucionária, desde o que há de mais cotidiano. Mais importante do que a própria abertura da segunda parte desse bloco de comunicados, é chegar ao final e ver que o assinou.
O finado Subcomandante Marcos renasceu, agora como “El Capitán”. Ressurgiu de sua primeira morte, em maio de 2014.
Ao analisarmos a abertura do comunicado, o teor dele (que será abordado em breve), e a assinatura do mesmo, interpretamos que mudanças drásticas estão sendo tomadas. O renascimento de Marcos tornou-se necessária por causa do movimento de intensificação da luta armada pelos zapatistas, consequência dos sérios e alarmantes aumentos significativos dos tensionamentos políticos entre o Estado (ou narco-Estado) mexicano, as grandes coorporações buscando construir megaprojetos (como o Trem Maia), e toda tensão (institucional e também das redes informais, ambas criminosas) ligada ao comércio da imigração de dezenas de dezenas de milhares de pessoas de nosso continente que estão indo "ilegalmente" em direção aos EUA e tudo isso permeado de paramilitares e milicias.
Dizemos isso pelo próprio caráter do comunicado, onde Marcos interpreta o poema do poeta nicaraguense Rubén Darío, deixado pelo agora falecido SupGaleano. Em um primeiro momento, poderíamos interpretá-lo de forma restrita como uma referência à atual guerra do Estado de Israel contra o povo da Palestina, entretanto, foi deixado-o antes da intesificação da limpeza étnica do povo palestino, como o próprio El Capitán comenta no comunicado.
O poema de Rubén Darío, Os Motivos do Lobo, escrito no (talvez não tão) distante ano de 1913, aparece aqui como uma tentativa de resposta ao que vem acontecendo em Chiapas, no México e no mundo, afirma Marcos.
Não entraremos em detalhes e nem nos aprofundaremos nos comunicados. Este texto tem como único objetivo propagar os últimos comunicados zapatistas que movimentaram o mundo, desde suas entranhas mais invisíveis.
Como dito anteriormente, a morte e o renascimento na política zapatistas possuem grande importância e mudam os rumos do movimento. Fomos comunicados ainda na segunda parte que estão acontecendo e também está para vir mudanças radicais dentro das comunidades zapatistas, do EZLN e em Chiapas e México. Isso é perceptível no primeiro P.S. do comunicado:
“Liberdade incondicional para Manuel Gómez Vázquez (sequestrado desde 2020 pelo governo estatal de Chiapas) e José Díaz Gómez (sequestrado desde o ano passado), indígenas bases de apoio zapatistas presos por isso, por serem zapatistas. Depois não perguntem quem semeou o que colherão.”
A segunda parte dos comunicados que abalaram o México e o mundo é um claro aceno à intensificação da luta armada contra o narco-Estado mexicano, vista como única opção para o garantimento de um futuro que caiba todos os mundos juntos.
Para esse novo período, se tornou necessária a dissolução dos famosos ‘caracoles’, sua estrutura autônoma de governo e a criação de uma nova estrutura de autonomia zapatista.
El Capitán Marcos informa que pode parecer confuso a necessidade de uma nova estrutura da autonomia zapatista, mas é importante enfatizar que foram necessários 10 anos para ser pensada, e desses 10 anos, os últimos três foram para preparar o terreno e colocá-lo em prática. Não há uma decisão espontânea aqui, é algo criado desde do que vem organizado coletivamente há anos.
E assim, vemos o aprofundamento da Autonomia Zapatista, construído com e pela base, a partir das críticas e autocríticas acumuladas desde o início dos Caracoles.
Sobre a nova estrutura de autonomia zapatista
[O texto a seguir foi extraído do nono comunicado zapatista: “Novena Parte: La Nueva Estructura de la Autonomía Zapatista.”].
Primeiro. A base principal, que não é apenas onde a autonomia é sustentada, mas também sem a qual as outras estruturas não podem funcionar, é o Governo Autônomo Local (GAL).
Há um GAL em cada comunidade onde vivem as bases de apoio zapatistas. Os GAL’s zapatistas são o núcleo de toda a autonomia. Eles são coordenados por agentes e comissários autônomos e estão sujeitos à assembleia da cidade, ranchería, comunidade, área, bairro, ejido, colônia ou como cada população se denomina.
Cada GAL controla seus recursos organizacionais autônomos (como escolas e clínicas) e o relacionamento com as cidades irmãs não zapatistas vizinhas. E controla o uso adequado do salário. Ele também detecta e denuncia a má administração, a corrupção e os erros que possam existir. E está atento àqueles que querem se passar por autoridades zapatistas para pedir apoio ou ajuda que usam em benefício próprio.
Portanto, se antes havia algumas dezenas de MAREZ, ou seja, Municípios Autônomos Rebeldes Zapatistas, agora há milhares de GAL’s Zapatistas.
Segundo. De acordo com suas necessidades, problemas e progresso, vários GALs são reunidos em Coletivos de Governos Autônomos Zapatistas (CGAZ), onde são discutidos e firmados acordos sobre assuntos de interesse dos GALs reunidos. Quando assim determinam, os Coletivos de Governos Autônomos convocam uma assembleia das autoridades de cada comunidade. Nela, são propostos, discutidos e aprovados ou rejeitados os planos e as necessidades de saúde, educação, agroecologia, justiça, comércio e outros que forem necessários. No nível da CGAZ, há os coordenadores de cada área.
Eles não são autoridades. Seu trabalho é garantir que o trabalho solicitado pelo GAL ou que seja considerado necessárias à vida comunitária. Como, por exemplo: medicina preventiva e campanhas de vacinação, campanhas para doenças endêmicas, cursos e treinamentos especializados (como técnicos de laboratório), festas tradicionais etc. Cada região ou CGAZ tem seus diretores, que são os que convocam as assembléias se houver um problema urgente ou que afete várias comunidades. Ou seja, onde antes havia 12 Conselhos de Bom Governo, agora haverá centenas.
Terceiro. Em seguida, vêm as Assembleias de Coletivos de Governos Autônomos ZAPATISTA, ACGAZ.
Que são o que antes eram conhecidas como zonas. Mas eles não têm autoridade, dependem do CGAZ. E o CGAZ depende do GAL. O ACGAZ convoca e preside as assembléias zonais, quando necessário, de acordo com as solicitações do GAL e do CGAZ. Eles estão sediados nas caracóis, mas se deslocam entre as regiões. Em outras palavras, eles são móveis, de acordo com as demandas de atenção da população.
Imagem feita para a publicação no instagram do coletivo
Quarto. Como poderá ser visto na prática, o Comando e Coordenação da Autonomia foram transferidos das JBG e MAREZ para os povos e comunidades, para os GAL. As zonas (ACGAZ) e as regiões (CGAZ) são comandadas pelos povos, devem prestar contas aos povos e buscar formas de atender às suas necessidades em Saúde, Educação, Justiça, Alimentação e outras que surjam por emergências causadas por desastres naturais, pandemias, crimes, invasões, guerras e as demais desgraças impostas pelo sistema capitalista.
Quinto. A reorganização da estrutura e disposição zapatistas vem devido a uma necessidade de preparo para o retorno da política de “diálogo armado” (como já colocado na primeira parte do texto), ou seja, de modo a aumentar a defesa e segurança das comunidades e da mãe terra em caso de agressões, ataques, epidemias, invasão de empresas predatórias da natureza, ocupações militares parciais ou totais, catástrofes naturais e guerras nucleares. Preparamo-nos para que nossos povos sobrevivam, mesmo isolados uns dos outros.
Acauã Neves
Hortolândia, 25 de Dezembro de 2023.
P.S.: para quem quiser, disponibilizamos aqui abaixo os links para todos os comunicados que foram lançados desde outubro. Agradecemos quem quer que tenha feito o trabalho de tradução dos textos.
Primeira Parte: Os Motivos do Lobo
Segunda Parte: Os mortos espirram?
Quarta Parte: Várias mortes necessárias
Quinta Parte: “Aí vai o golpe, jovem”
Sexta Parte: Pós-escrito que busca esperando encontrar
Sétima Parte: Um besouro em streaming
Oitava Parte: P.S. O que ler para saber do que se trata
Nona Parte: A Nova Estrutura da Autonomia Zapatista
Décima Parte: Sobre as pirâmides e seus usos e costumes
Décima Primeira Parte: Enquanto isso, nas montanhas do sudeste mexicano…
Décima Segunda Parte: Fragmentos
Décima Terceira Parte: Duas partidas de futebol e uma mesma rebeldia
Décima Quarta Parte: A (outra) Regra do Terceiro Excluído
Décima Quinta Parte: De noite e em plena luz…
Décima Sexta Parte: Bertold Brecht, as cumbias e a não-existência
Décima Sétima Parte: Nunca mais…
Décima Nona Parte: A quem corresponda:
Vigésima e Última Parte: O comum e a não propriedade
Segundo P.S.: logo logo, vem mais sementes zapatistas a serem espelhadas pelas brechas e crescerem rompendo o concreto. Aguardem…